hoje foi um dia bem difícil. acho que enquanto eu não sentasse pra organizar e tirar daqui de dentro antes de acabar o dia, não ia passar. tentei dormir, mas acordei antes que o dia acabasse pra me lembrar que não acabou e que não fiz o que desde o começo eu disse que faria. escrever pra você.
hoje revivi aquele dia.
acho que o último dia que peguei na sua mão e você pegou na minha de volta.
o dia que te olhei e soube que era a última vez que te olhava.
já nem escutei mais sua voz nesse dia.
você usava uma máscara, não abria mais o olho, não falava mais também. mas eu entendi que você me dizia que sabia que eu tava lá.
fiquei no pé da sua cama te olhando. ele do meu lado, ela do outro. suspirava, engolia seco, não podia deixar de sentir o gosto salgado das lágrimas que eu segurava.
vim embora.
já não segurava mais. transbordava de dentro de mim.
você tão pequena e tão grande. tão fraca e tão forte.
hoje de manhã sentei na sala. olhei pra porta. me vi chegando do hospital aquele dia, olhando para os meus pais e dizendo que você ia morrer.
aquele dia eu soube.
senti uma dor. doía. eles me abraçavam. eu só chorava.
lembrei que no dia anterior vc entrou pelo pronto socorro e eu nunca saía por lá, e nesse dia resolvi (ainda bem que nossos anjos conversam) passar pelo corredor e lá você na sala de emergência. entrei. você me sorriu. não queria ir pra uti. eu só pude te puncionar, te dar um beijo e dizer que você precisava e que amanhã eu estaria lá pra te ver.
aí lembrei de mais dias anteriores, porque o dia seguinte seu corpo já não respondia mais. o outro você descansou. era primeiro de janeiro.
final de ano não tem como lembrar daqueles três dias em que soube que você partiria.
mas também me lembra dos cinco anos que o seu 'tia sabrina' era o melhor que eu podia escutar.
laços invisíveis são talvez mais fortes que laços de sangue. e eu sei que ali tinha. a gente sabia.
ontem à noite subi na cirurgia pediátrica.
tinha uma menina da sua idade. com a sua cicatriz. com seus drenos. a sua cirurgia. branquinha meio amarela de cabelos pretos, um olhar sério e curioso. de dor e de força. como o seu.
ela não me viu, falei com as meninas, ela pediu pra me ver.
dei a volta no leito. disse oi. ela disse oi. chamava melissa. perguntou se eu ia cuidar dela. igual quando você me fazia. eu disse que aquela hora não, mas que quando ela precisasse sim. disse que eu sabia que doía tudo aquilo. mas que logo logo ia saindo cada um daqueles buraquinhos. disse pra ela acreditar. ela concordou com a cabeça enquanto as meninas a trocavam e a viravam pra um lado e pro outro e trocavam sua cama.
você me veio de pronto na cabeça.
você já não tem nenhum buraquinho agora né.
você já não precisa de sonda nem de agulha. nem de curativo. nem de dreno.
hoje também lembro do nosso primeiro encontro. você no quarto com seu avô. tava internada por uma otite pela sua imunodeficiência. ali não era um encontro. era o nosso reencontro.
eu sei que você sabe que eu tô falando com você. desculpa pela dor e pelo choro que te fiz lembrar hoje.
mas se eu posso te dizer algo hoje é obrigada por ser quem você representou pra mim.
obrigada por me ensinar que grandes batalhas são pra grandes guerreiros. lembro até hoje do seu bracinho magrinho levantando no meio daquele monte de gente quando o pastor contou sua história e eu tava do seu lado.
obrigada pelos seus pais me permitirem cuidar de você.
obrigada por me ensinar que as crianças sabem o que é amor.
desculpa não ter feito mais alguma coisa por você. mas se alguém fez algo ali, foi você por mim.
fica em paz.
segue seu caminho.
brilha sua luz onde quer que você vá.
eu ainda espero ficar um tempão do lado de cá. minha estrada ainda é longa. mas até qualquer dia. até breve. até o próximo reencontro.
com amor.
tia sabrina.