lunes, 18 de mayo de 2020

diálogos a beira leito.


A uti é um lugar cheio de tubos. Tubo pra respirar. Tubo pra te alimentar. Tubo pra te dar medicação direto na veia. Tubo pra fazer xixi. E todos os dias coletamos tubos de sangue. 
A uti é um lugar cheio de barulho. É alarme. O tempo todo. Bomba de infusão apita. Ventilador apita. Monitor apita. Bate lixo. Bate porta. Telefone toca. Enfermagem fala. Médicos falam. Fisioterapeutas falam. Todo mundo fala, ao mesmo tempo.
E a gente se acostuma. Aos barulhos.  Aos aparelhos. Aos fios. Mas a gente esquece que a gente vai embora todo dia pra casa. Dorme na nossa cama quietinho. Sem luz. Sem barulho. Sem tubo. Sem ninguém te interromper.
Domingo. Plantão noturno. Já devia ser +- umas 2h da manhã. Vejo o menino pelo vidro do isolamento de olho aberto, tentando levantar a mão. 12 anos. COVID. Internado. Intubado. Todos os fios e tubos. Sozinho.
Lá vou eu me paramentar toda pra entrar. Bota máscara, óculos, touca. Bota avental. Bota propé. Bota luva. Bota face shield. Entro. Ele abre o olho e fica me olhando mas não consegue falar pq tem um tubo na boca. Mas consegue mexer a cabeça. Quer que te aspire? Não. Quer que mude de posição? Não. Tá com dor? Não. Tá com frio? Não. Tá com febre? Encosto nele, coloco termômetro, não tá. Dói a barriga? Não. Mudo o sensor de dedo. Mudo o manguito da pressão. Limpo o olho e a boca. Fralda tá limpa. E ele continua me olhando com a mesma cara. Eu penso que já olhei tudo.  Fico pensando em mais coisas pra perguntar.  Bom, não descobri o que ele queria. Ele abre e fecha o olho. Tenta levantar um pouco a mão de novo, mas não consegue pela sedação. Já sem esperança de descobrir o que ele queria (porque até então eu achava que tinha feito todas as perguntas possíveis que eu pudesse fazer), digo: R, vou sair tá? Ele mais uma vez com a cabeça faz que não. Faço cara de interrogação, já perguntei de tudo. Já chequei tudo.  Você quer que eu fique aqui? Sim. Paro. Bug. Eu pergunto de novo: Você quer que eu fique aqui com você? Sim de novo. Atrás de toda a parafernalha de EPI e de todos os aparelhos e dispositivos existem duas pessoas. Só ocupamos papeis diferentes. Mas somos duas pessoas. Eu, sozinha na quarentena pq trabalho em um hospital. Ele, sozinho pq está doente dentro de um hospital. Por um segundo reflito: Pensei em todos os aparelhos e todos os dispositivos e todos os “motivos” do porquê alguém chama a enfermeira. E não pensei que uma criança de 12 anos, que não pode ter acompanhante porque os pais também estão doentes, não queria ficar de madrugada, às duas da manhã, sozinho no quarto de isolamento. Continuei ali. De pé ao lado da cama. Ele ainda entre ficar de olho aberto e fechado, me olhava. Perguntei: Você sabe onde você tá? Não. Sabe que dia é hoje, que horas são? Não. Comecei a falar. Disse que ele tava na UTI. Que tava doente, mas que tava melhorando. Que não podia respirar sozinho. Que eram duas da manhã, ele podia dormir mais um pouco, eu ia apagar a luz. Disse que os pais dele não podiam ficar lá, mas que a mãe dele ligava todo dia. Lágrimas escorriam. Ele fechava o olho forte. E naquele dia eu tinha me dado conta que no plantão passado tinha sido seu aniversário de 12 anos. E o plantão foi tão corrido, que eu não consegui sentar pra fazer a papelada e não olhei a data de nascimento. Ontem que eu percebi. Disse pra ele que ele já tinha feito 12 anos. Lágrimas escorriam de novo. Disse que ia ficar tudo bem e que tudo ia passar. E que quando ele saísse de lá a gente ia fazer uma festa de aniversário. Fechou o olho de novo. Fiquei lá até ele adormecer. Vi quando a frequência cardíaca baixou e a respiração ficou mais profunda. Saí devagarinho sem fazer barulho com os fios, a porta, o lixo, a pia.

pós-nota: Eu não sei se vai acontecer tudo o que eu disse. Pode ser que não. A gente não sabe o dia de amanhã. Falei com o coração apertado. Mas um dia eu aprendi num livro que as borboletas têm um vida muito curta, e o fato delas não estarem vivas no dia seguinte, não exclui o fato de que um dia elas estiveram e tudo que viveram. Ontem era o que eu pude falar. Talvez pela sedação ele nunca se lembre que esse diálogo um dia existiu. Pode ser que aconteça a festa. Pode ser que não. Mas enquanto houver algo que puder trazer esperança, acho que irei trazer. Amanhã é outro dia. Outro plantão. Outras 12h que espero que caibam olhar a data de aniversário e entender o pedido de alguém.

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