viernes, 11 de junio de 2021

doze de maio, insta, 21´.

e hoje eu amanheci triste. era o primeiro dia da enfermagem que eu não estava trabalhando. depois de 10 anos, aquele era o primeiro que eu não passava como enfermeira. enfermeira que sou desde o dia que vesti a beca e chorei  no juramento que a gente defenderia a vida e o paciente pro resto da nossa vida. e hoje, de manhã, engoli o choro umas vezes. respirei fundo. eu tentava me confortar e pensar: tá tudo bem, é só mais um passo na minha vida. e pensava em tudo o que a enfermagem me deu até hoje pra que eu pudesse chegar onde eu tava. e aí, eu que amanheci triste, ganhei um presente de dia do enfermeiro: meu primeiro parto normal de verdade, ao lado de uma enfermeira e de uma médica. e eu, meio médica meio enfermeira, bem ali no meio das duas. segurei e dei as boas vindas à eliza, uma bebê que acabava de chegar à esse mundo. ali, eu soube que o universo me dizia que eu não precisava ficar triste, que tava tudo bem e meu caminho tava certo. que era pra eu continuar com amor, a fazer o que eu tinha aprendido a fazer até hoje, independente do papel que eu ocupe. 

obrigada equipe da G.O. por serem pessoas incríveis e transmitirem essa força e sensibilidade que vcs têm. obrigada enfermagem por me fazer ser quem eu sou até hoje. e obrigada a todas as crianças que eu já pude estar no caminho, seja vendo vocês abrirem os olhos pela primeira vez ou fechando pela última. cada uma de vocês tem um nome e uma história. a gente só faz parte de um trecho, quem as escreve são vocês.

obs: era um rascunho pro texto do insta, mas decidi deixar registrado aqui, pra eu sempre me lembrar do doze de maio. 

viernes, 30 de abril de 2021

blink.

tem tantas coisas na minha cabeça pra organizar o primeiro post de 2021 que me falta critérios pra decidir. a interminável pandemia. as coisas que eu deixei por fazer que devia ter feito. as coisas que eu não fazia e hoje eu faço e inclusive reconheço (o que tb é uma coisa que não fazia). as pessoas que estavam e foram. as pessoas que não estavam e ficam. a vida num piscar de olhos. taí, gostei. 

a vida num piscar de olhos. 

trinta de abril de 2021. são dez da noite. comecei o dia já não fazendo coisas que eram pra fazer. (e depois de ter feito coisas que talvez eu não devesse ter feito). mas só abro o olho. vejo que é tarde e eu ainda tô com sono. acordo. sorrio sozinha. saio pelada do cobertor quentinho direto pro banho. tá frio. tô meio lenta. só termino de acordar com da água no cabelo e o cheiro do sabonete na minha pele.

sei que tô errada. e que não sei muitas coisas. mas uma coisa eu sei. que estou onde quero estar. e isso, pra cabeça de um ansioso, é incrivelmente alucinante. vc estar de verdade. ali naquele lugar e naquela hora. fazendo o que tá com vontade de fazer naquele lugar e naquela hora. 

nem sempre essa sensação me acompanha em diferentes momentos de dia. alguns sim. e aí evito julgar. me deixo sentir.

e agora à noite, tô tentando lembrar de uma frase boa, mas não sei na verdade. mas quero dizer que quem tem amigos, tem tudo. que amizade é um amor que nunca morre. lembrei! era exatamente isso. obrigada por ser meu amigo. por serem minhas amigas. minha vida é incrivelmente mais colorida quando tem uma pitada de amigos no meu dia. 

namastê.

sábado, 28 de noviembre de 2020

borrarlo.

 tem dias que eu queria apagar pra que eles não existissem.

dolor.

 uma das coisas mais difíceis da vida é viver.

a tia alzira dizia que estamos na faculdade terra. que estamos de viagem, de passagem, em uma realidade muito menor do que a gente conhece ou supõe existir. estamos de passagem sem saber da onde viemos e nem pra onde vamos. pra que possamos viver de verdade o presente na terra. se soubéssemos tudo que já vivemos, e tudo que talvez existe por viver, seria muito mais difícil não nos depararmos com as tristezas do ontem e o medo do amanhã.

aqui na terra, só no presente dessa passagem a gente já sente isso. esse dilema entre viver o hoje pensando no ontem e no amanhã. imagina com mais informação. não é fácil, nem um pouco fácil. eu tenho memórias desde criança. memórias de coisas que poucas pessoas sabem, acho que ele é uma das pessoas que mais sabe. mas só quem sabe tudo, e parte de tudo, sou eu. pq tem memórias que são só sentimentos e não fatos. é quando sentimos sem sabermos o porquê. tem algumas pessoas que parecem que temos mais sentimentos do que fatos. às vezes uma pessoa nos parece tão próxima sem que de fato sejamos próximas dela. e às vezes alguém tão perto, nos parece tão longe. ou de tanto que conhecíamos, que não conhecemos mais. 

estar preparada pro pior que possa vir é algo que aprendi desde cedo. não sei como nem porquê. eu acho que eu tenho esperança. que tenho fé. que tenho coragem. mas sinto tanto medo que esqueço do que tenho. e acho sim, que o pior um dia chega. mais cedo ou mais tarde. por mais que coisas boas no meio do caminho diminuam nossa dor. ela vai aparecer. e vai te consumir. e vai te deixar não conseguir fazer mais nada. 

la enfermera y la pandemia.

me lembrarei de cada paciente que cuidei na pandemia.
a criança com medo de ficar sozinha pq não podia ter acompanhante.
o pai ajoelhado a noite toda ao lado do seu berço sem saber se você ia acordar no dia seguinte e você não acordou.
a mãe assustada com cada fio e cada barulho que tem numa uti.
o choro alto do pai no banheiro de acompanhante, que dava pra ouvir o desespero de longe no salão. 
quando a gente fecha a porta e põe biombo numa emergência vocês sabem que tem uma criança entre a vida e a morte.

olhar pra esse quadro me faz lembrar quem eu sou. e me faz lembrar que sou um ser humano. mortal. imperfeito. 

era um pós plantão. os dias ultimamente tinham sido um pouco angustiantes.
toca o interfone, tem encomenda. tinha comprado um presente pra ele. e umas coisinhas aleatorias do site da china pra usar no plantão. desci, achando que era uma dessas coisas e talvez o presente tivesse chegado antes do tempo previsto. mas não, era uma caixa enorme. até olhei se não tava errado, mas meu nome e endereço tavam certos. subi. comecei a abrir. não parava de tirar embalagem e embalagem e nunca chegava. parecia criança que quer tirar logo a embalagem e não consegue. mal consegui abrir e puxar e tirar o quadro de dentro da embalagem. e chorei. e chorei. olhava a chorava.



ps: achei esse relato no rascunho de um dia não publicado. obrigada por me lembrar desse dia.

lunes, 18 de mayo de 2020

diálogos a beira leito.


A uti é um lugar cheio de tubos. Tubo pra respirar. Tubo pra te alimentar. Tubo pra te dar medicação direto na veia. Tubo pra fazer xixi. E todos os dias coletamos tubos de sangue. 
A uti é um lugar cheio de barulho. É alarme. O tempo todo. Bomba de infusão apita. Ventilador apita. Monitor apita. Bate lixo. Bate porta. Telefone toca. Enfermagem fala. Médicos falam. Fisioterapeutas falam. Todo mundo fala, ao mesmo tempo.
E a gente se acostuma. Aos barulhos.  Aos aparelhos. Aos fios. Mas a gente esquece que a gente vai embora todo dia pra casa. Dorme na nossa cama quietinho. Sem luz. Sem barulho. Sem tubo. Sem ninguém te interromper.
Domingo. Plantão noturno. Já devia ser +- umas 2h da manhã. Vejo o menino pelo vidro do isolamento de olho aberto, tentando levantar a mão. 12 anos. COVID. Internado. Intubado. Todos os fios e tubos. Sozinho.
Lá vou eu me paramentar toda pra entrar. Bota máscara, óculos, touca. Bota avental. Bota propé. Bota luva. Bota face shield. Entro. Ele abre o olho e fica me olhando mas não consegue falar pq tem um tubo na boca. Mas consegue mexer a cabeça. Quer que te aspire? Não. Quer que mude de posição? Não. Tá com dor? Não. Tá com frio? Não. Tá com febre? Encosto nele, coloco termômetro, não tá. Dói a barriga? Não. Mudo o sensor de dedo. Mudo o manguito da pressão. Limpo o olho e a boca. Fralda tá limpa. E ele continua me olhando com a mesma cara. Eu penso que já olhei tudo.  Fico pensando em mais coisas pra perguntar.  Bom, não descobri o que ele queria. Ele abre e fecha o olho. Tenta levantar um pouco a mão de novo, mas não consegue pela sedação. Já sem esperança de descobrir o que ele queria (porque até então eu achava que tinha feito todas as perguntas possíveis que eu pudesse fazer), digo: R, vou sair tá? Ele mais uma vez com a cabeça faz que não. Faço cara de interrogação, já perguntei de tudo. Já chequei tudo.  Você quer que eu fique aqui? Sim. Paro. Bug. Eu pergunto de novo: Você quer que eu fique aqui com você? Sim de novo. Atrás de toda a parafernalha de EPI e de todos os aparelhos e dispositivos existem duas pessoas. Só ocupamos papeis diferentes. Mas somos duas pessoas. Eu, sozinha na quarentena pq trabalho em um hospital. Ele, sozinho pq está doente dentro de um hospital. Por um segundo reflito: Pensei em todos os aparelhos e todos os dispositivos e todos os “motivos” do porquê alguém chama a enfermeira. E não pensei que uma criança de 12 anos, que não pode ter acompanhante porque os pais também estão doentes, não queria ficar de madrugada, às duas da manhã, sozinho no quarto de isolamento. Continuei ali. De pé ao lado da cama. Ele ainda entre ficar de olho aberto e fechado, me olhava. Perguntei: Você sabe onde você tá? Não. Sabe que dia é hoje, que horas são? Não. Comecei a falar. Disse que ele tava na UTI. Que tava doente, mas que tava melhorando. Que não podia respirar sozinho. Que eram duas da manhã, ele podia dormir mais um pouco, eu ia apagar a luz. Disse que os pais dele não podiam ficar lá, mas que a mãe dele ligava todo dia. Lágrimas escorriam. Ele fechava o olho forte. E naquele dia eu tinha me dado conta que no plantão passado tinha sido seu aniversário de 12 anos. E o plantão foi tão corrido, que eu não consegui sentar pra fazer a papelada e não olhei a data de nascimento. Ontem que eu percebi. Disse pra ele que ele já tinha feito 12 anos. Lágrimas escorriam de novo. Disse que ia ficar tudo bem e que tudo ia passar. E que quando ele saísse de lá a gente ia fazer uma festa de aniversário. Fechou o olho de novo. Fiquei lá até ele adormecer. Vi quando a frequência cardíaca baixou e a respiração ficou mais profunda. Saí devagarinho sem fazer barulho com os fios, a porta, o lixo, a pia.

pós-nota: Eu não sei se vai acontecer tudo o que eu disse. Pode ser que não. A gente não sabe o dia de amanhã. Falei com o coração apertado. Mas um dia eu aprendi num livro que as borboletas têm um vida muito curta, e o fato delas não estarem vivas no dia seguinte, não exclui o fato de que um dia elas estiveram e tudo que viveram. Ontem era o que eu pude falar. Talvez pela sedação ele nunca se lembre que esse diálogo um dia existiu. Pode ser que aconteça a festa. Pode ser que não. Mas enquanto houver algo que puder trazer esperança, acho que irei trazer. Amanhã é outro dia. Outro plantão. Outras 12h que espero que caibam olhar a data de aniversário e entender o pedido de alguém.

jueves, 7 de mayo de 2020

pasó.

havia um tempo em que nunca tinha sido diferente.
e todo mundo reclamava.
hoje é um tempo diferente.
e todo mundo nostalgia aquele tempo.
eu não sei mais o que quero do ontem no amanhã.
o porquê do hoje não quero.
quero mais sim. mais tudo bem. mais é isso. mais pode ser. mais obrigada.
será que é querer muito?