sábado, 28 de noviembre de 2020

borrarlo.

 tem dias que eu queria apagar pra que eles não existissem.

dolor.

 uma das coisas mais difíceis da vida é viver.

a tia alzira dizia que estamos na faculdade terra. que estamos de viagem, de passagem, em uma realidade muito menor do que a gente conhece ou supõe existir. estamos de passagem sem saber da onde viemos e nem pra onde vamos. pra que possamos viver de verdade o presente na terra. se soubéssemos tudo que já vivemos, e tudo que talvez existe por viver, seria muito mais difícil não nos depararmos com as tristezas do ontem e o medo do amanhã.

aqui na terra, só no presente dessa passagem a gente já sente isso. esse dilema entre viver o hoje pensando no ontem e no amanhã. imagina com mais informação. não é fácil, nem um pouco fácil. eu tenho memórias desde criança. memórias de coisas que poucas pessoas sabem, acho que ele é uma das pessoas que mais sabe. mas só quem sabe tudo, e parte de tudo, sou eu. pq tem memórias que são só sentimentos e não fatos. é quando sentimos sem sabermos o porquê. tem algumas pessoas que parecem que temos mais sentimentos do que fatos. às vezes uma pessoa nos parece tão próxima sem que de fato sejamos próximas dela. e às vezes alguém tão perto, nos parece tão longe. ou de tanto que conhecíamos, que não conhecemos mais. 

estar preparada pro pior que possa vir é algo que aprendi desde cedo. não sei como nem porquê. eu acho que eu tenho esperança. que tenho fé. que tenho coragem. mas sinto tanto medo que esqueço do que tenho. e acho sim, que o pior um dia chega. mais cedo ou mais tarde. por mais que coisas boas no meio do caminho diminuam nossa dor. ela vai aparecer. e vai te consumir. e vai te deixar não conseguir fazer mais nada. 

la enfermera y la pandemia.

me lembrarei de cada paciente que cuidei na pandemia.
a criança com medo de ficar sozinha pq não podia ter acompanhante.
o pai ajoelhado a noite toda ao lado do seu berço sem saber se você ia acordar no dia seguinte e você não acordou.
a mãe assustada com cada fio e cada barulho que tem numa uti.
o choro alto do pai no banheiro de acompanhante, que dava pra ouvir o desespero de longe no salão. 
quando a gente fecha a porta e põe biombo numa emergência vocês sabem que tem uma criança entre a vida e a morte.

olhar pra esse quadro me faz lembrar quem eu sou. e me faz lembrar que sou um ser humano. mortal. imperfeito. 

era um pós plantão. os dias ultimamente tinham sido um pouco angustiantes.
toca o interfone, tem encomenda. tinha comprado um presente pra ele. e umas coisinhas aleatorias do site da china pra usar no plantão. desci, achando que era uma dessas coisas e talvez o presente tivesse chegado antes do tempo previsto. mas não, era uma caixa enorme. até olhei se não tava errado, mas meu nome e endereço tavam certos. subi. comecei a abrir. não parava de tirar embalagem e embalagem e nunca chegava. parecia criança que quer tirar logo a embalagem e não consegue. mal consegui abrir e puxar e tirar o quadro de dentro da embalagem. e chorei. e chorei. olhava a chorava.



ps: achei esse relato no rascunho de um dia não publicado. obrigada por me lembrar desse dia.

lunes, 18 de mayo de 2020

diálogos a beira leito.


A uti é um lugar cheio de tubos. Tubo pra respirar. Tubo pra te alimentar. Tubo pra te dar medicação direto na veia. Tubo pra fazer xixi. E todos os dias coletamos tubos de sangue. 
A uti é um lugar cheio de barulho. É alarme. O tempo todo. Bomba de infusão apita. Ventilador apita. Monitor apita. Bate lixo. Bate porta. Telefone toca. Enfermagem fala. Médicos falam. Fisioterapeutas falam. Todo mundo fala, ao mesmo tempo.
E a gente se acostuma. Aos barulhos.  Aos aparelhos. Aos fios. Mas a gente esquece que a gente vai embora todo dia pra casa. Dorme na nossa cama quietinho. Sem luz. Sem barulho. Sem tubo. Sem ninguém te interromper.
Domingo. Plantão noturno. Já devia ser +- umas 2h da manhã. Vejo o menino pelo vidro do isolamento de olho aberto, tentando levantar a mão. 12 anos. COVID. Internado. Intubado. Todos os fios e tubos. Sozinho.
Lá vou eu me paramentar toda pra entrar. Bota máscara, óculos, touca. Bota avental. Bota propé. Bota luva. Bota face shield. Entro. Ele abre o olho e fica me olhando mas não consegue falar pq tem um tubo na boca. Mas consegue mexer a cabeça. Quer que te aspire? Não. Quer que mude de posição? Não. Tá com dor? Não. Tá com frio? Não. Tá com febre? Encosto nele, coloco termômetro, não tá. Dói a barriga? Não. Mudo o sensor de dedo. Mudo o manguito da pressão. Limpo o olho e a boca. Fralda tá limpa. E ele continua me olhando com a mesma cara. Eu penso que já olhei tudo.  Fico pensando em mais coisas pra perguntar.  Bom, não descobri o que ele queria. Ele abre e fecha o olho. Tenta levantar um pouco a mão de novo, mas não consegue pela sedação. Já sem esperança de descobrir o que ele queria (porque até então eu achava que tinha feito todas as perguntas possíveis que eu pudesse fazer), digo: R, vou sair tá? Ele mais uma vez com a cabeça faz que não. Faço cara de interrogação, já perguntei de tudo. Já chequei tudo.  Você quer que eu fique aqui? Sim. Paro. Bug. Eu pergunto de novo: Você quer que eu fique aqui com você? Sim de novo. Atrás de toda a parafernalha de EPI e de todos os aparelhos e dispositivos existem duas pessoas. Só ocupamos papeis diferentes. Mas somos duas pessoas. Eu, sozinha na quarentena pq trabalho em um hospital. Ele, sozinho pq está doente dentro de um hospital. Por um segundo reflito: Pensei em todos os aparelhos e todos os dispositivos e todos os “motivos” do porquê alguém chama a enfermeira. E não pensei que uma criança de 12 anos, que não pode ter acompanhante porque os pais também estão doentes, não queria ficar de madrugada, às duas da manhã, sozinho no quarto de isolamento. Continuei ali. De pé ao lado da cama. Ele ainda entre ficar de olho aberto e fechado, me olhava. Perguntei: Você sabe onde você tá? Não. Sabe que dia é hoje, que horas são? Não. Comecei a falar. Disse que ele tava na UTI. Que tava doente, mas que tava melhorando. Que não podia respirar sozinho. Que eram duas da manhã, ele podia dormir mais um pouco, eu ia apagar a luz. Disse que os pais dele não podiam ficar lá, mas que a mãe dele ligava todo dia. Lágrimas escorriam. Ele fechava o olho forte. E naquele dia eu tinha me dado conta que no plantão passado tinha sido seu aniversário de 12 anos. E o plantão foi tão corrido, que eu não consegui sentar pra fazer a papelada e não olhei a data de nascimento. Ontem que eu percebi. Disse pra ele que ele já tinha feito 12 anos. Lágrimas escorriam de novo. Disse que ia ficar tudo bem e que tudo ia passar. E que quando ele saísse de lá a gente ia fazer uma festa de aniversário. Fechou o olho de novo. Fiquei lá até ele adormecer. Vi quando a frequência cardíaca baixou e a respiração ficou mais profunda. Saí devagarinho sem fazer barulho com os fios, a porta, o lixo, a pia.

pós-nota: Eu não sei se vai acontecer tudo o que eu disse. Pode ser que não. A gente não sabe o dia de amanhã. Falei com o coração apertado. Mas um dia eu aprendi num livro que as borboletas têm um vida muito curta, e o fato delas não estarem vivas no dia seguinte, não exclui o fato de que um dia elas estiveram e tudo que viveram. Ontem era o que eu pude falar. Talvez pela sedação ele nunca se lembre que esse diálogo um dia existiu. Pode ser que aconteça a festa. Pode ser que não. Mas enquanto houver algo que puder trazer esperança, acho que irei trazer. Amanhã é outro dia. Outro plantão. Outras 12h que espero que caibam olhar a data de aniversário e entender o pedido de alguém.

jueves, 7 de mayo de 2020

pasó.

havia um tempo em que nunca tinha sido diferente.
e todo mundo reclamava.
hoje é um tempo diferente.
e todo mundo nostalgia aquele tempo.
eu não sei mais o que quero do ontem no amanhã.
o porquê do hoje não quero.
quero mais sim. mais tudo bem. mais é isso. mais pode ser. mais obrigada.
será que é querer muito?

miércoles, 14 de agosto de 2019

felicidade.

haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.
sentirá o ar sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis.
você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar.

tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar
nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.

melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
chorar
sorrir também
e depois dançar
na chuva quando a chuva vem.

(felicidade, jeneci marcelo)

viernes, 19 de julio de 2019

(no) me libres del mal, amen.

que eu não me esqueça quem eu sou, onde estou e pra onde vou.
li o comentário de julho de 2018. fez tanto sentido ser pós terapia como sua continuação esse julho de 2019.
que além de me fazer bem, eu não me esqueça de estar bem para passar pelas coisas ruins.
pedia isso dessa vez nas minhas preces, não me livre do mal que possa vir. mas me dê forças para estar bem e poder passar por ele.

fé, sempre.
amor, pelos que estão aqui e pelos que não estao.
força, pro hoje.
coragem, pro amanhã.